sexta-feira, junho 04, 2010

"A carne agarrada aos ossos"

por Diogo Vaz Pinto

Deitei a tarde pela janela e fiquei só
com a linha onde a luz se suspendeu
num tom rosado, tão calmo, quase
artificial neste fim de Abril, a descer sobre
o azul da minha voz. Pus-me a fumar
por cima de um caderno, enchendo
e virando páginas, um punho a apoiar
este rosto agarotado e um dedo
pasando pela boca que há muito
não se embeiça por sentidos razoáveis.

Não sei se tentava voltar aos braços
de alguma remota ilusão, se me fiquei
por um circuito de estilhaços ou qualquer
outra lesão silenciosa. Mais óbvios
todos os destinos, dói mais a princípio,
ver como os dias vão saindo repetidos. E daí,
a repetição talvez seja só eu, esta pequena
intriga ou vago remorso que me escreve.

Não era como se tivéssemos muito
a esperar das ruas, mas saímos
e depressa demos com o labirinto dos excessos
na noite que o corpo nos exigia. Os dois
à boleia do tempo, juntando mais
umas horas a esta idade que tresanda já
a maus hábitos, paixões sem interesse
e fantasias voltando a casa destruídas,
cada vez menos e menos inocentes.

Por aí a imaginação perdia
toda a confiança, dócil, foi-se ajoelhando
e enfrentou confissões ordinárias,
sepultando os sorrisos
que nos caíram entre os lábios.

Esquecemos tantas outras vidas.
Sentados de costas para a entrada,
no Saloio da 24, insististe que a vidinha,
enfim, lá tinha dado connosco. E que lugar
tão triste para o admitirmos, entre a fatia
de pizza, o rissol e os copos de plástico
que não foram suficientes para afastar-nos
da razão, nem sequer distrair os sinónimos
que chegam, às vezes demasiado cedo,
quando o coração é um ódio
tão natural, uma forma de pedir
que não contem mais connosco.

Um tudo-nada comovidos, aguentou-nos
um silêncio que também já não era só nosso.
Arrumados para estatísticas:
eu levando um curso aos chutos vai agora
para uns cinco anos, e tu, diplomado
e num primeiro emprego, a seres pago
para gastares com a infelicidade
as incertezas que te restam. Os dois,
como é normal, mimando e entretendo
a carne agarrada aos ossos.


Há dias que é só quanto fazemos: entreter a carne agarrada aos ossos.

Eu cá quero mimá-la e dar-lhe um sentido... e pensar que veio do Verbo maior.
Porque só com Amor posso tornar esta carne imune ao puro entretenimento. À pura distracção da vida. Ao alienamento. Porque para mim non-sense é só no humor.
Do que me rio é das denúncias com segundas intenções, mas mascaradas de boas intenções e desprendimento.
Como um "nem querer falar nisso" mas sai... e espalha-se... como qualquer palavra boa que podemos dar
(tantas vezes tudo o que temos para dar)
ignoramos,
ou fingimos ignorar,
que a palavra menos dócil também faz seu caminho.
E é opção nossa.

Se queremos magoar, agredir, sabemos como fazê-lo. E isso nunca é de forma involuntária. E quando o nunca ocorre e é, perde-se firmeza, atabalhoa-se as reais intenções e agarra-se à prancha para não afogar momentos...

(Respira-se com dificuldade, volta-se atrás no movimento, tentamos até sacudir e expelir a água como se não tivesse sido o nosso corpo a tê-la para si. Mas ninguém nos atirou à água. Fomos nós que mergulhámos. Que quisemos sentir os poros a encherem de vida, ouvir a respiração como se fosse o nosso meio, mas não temos guelras e tudo quanto usamos é artificial. Para entender um momento, justificar um sofrimento, trazer à vida um peixe que já está na conserva. Morto e conservado e oleado)

Momentos que já estavam num fundo escondido afogados em mágoa. Mágoa que vem à tona, quando brincamos com os pés no fundo, às vezes procurando conquilhas de que nem vamos usufruir. Só para apanhá-las e encher baldes...
Ou por desperdício, ou por não sabermos cozinhá-las em bom molho, ou porque ainda não é o tempo delas.
Porque aquilo que agarramos à carne sem explicação também nos pesa nos ossos. Bem como o tempo e as madrugadas, e as explicações e as fúrias, e as promessas e as palavras bonitas... que vêm e vêem das mais acres.
E somos responsáveis por aquilo que queremos prender à nossa carne agarrada aos ossos,
o que queremos cultivar na nossa pele,
o que queremos imprimir nas nossas impressões digitais,
o cheiro e o toque. E tudo quanto é experiência e vida em nós.

Qual é o sentido da busca sôfrega de sentido?
Incorremos no risco de o perceber daqui a 15 anos. e entretanto desgastámos, impedimos novos mundos, envelhecemos, até azedámos...
Quando só interessa simplificar, desprender, desagarrar e desgarrar.

Interessa "caminhar em direcção à vida"...

1 comentário:

  1. eu sei que é um cliché...carpe diem.
    é bom voltarmos às nossas conversas.
    fica o abraço!

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